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(…) Lembram-se como, há meses, a sra. Merkel se saiu em campanha eleitoral num dos estados alemães com a frase de que “na Grécia, Espanha e Portugal não se devia poder reformar mais cedo do que na Alemanha”, ou de que “não podemos ter uma moeda única onde uns têm muitas férias e outros poucas” (Diário Económico)? A calinada da chefe de do Governo alemão é tal que não pode ser senão propositada: se as alemãs se reformam em média aos 60,5 anos e os alemães aos 61,8, em Portugal as mulheres reformam-se aos 63,6 anos e os homens aos 67.
É possível ter-se enganado assim, sem mais? É evidente que não: Merkel sabe que a forma mais eficaz de conquistar apoio é a de apelar ao preconceito, às ideias feitas, histórica e sociologicamente erradas, partilhadas por grupos habitualmente maioritários das sociedades. A prova dos nove faz-se através do cálculo do número anual de horas de trabalho, e para tal usemos os dados da OCDE (OECD Stat Extract 2010, 2012). Vejamos: quais são os dois países da UE onde menos se trabalha? A Holanda (1377 horas/ano) e… a Alemanha (1408), olha que surpresa! Já agora, entre os dez primeiros, não há um único do Sul da Europa (a menos que a França conte como tal). Quem mais trabalha? Os gregos (2017 horas/ano)! Os portugueses (1714) aparecem em 8º lugar, atrás da Itália (1778) e de cinco países ex-socialistas, quase todos com o PIB inferior ao nosso.
(…) Desaforadamente mistificadora é a sra. Merkel (e os merkelianos de trazer por casa que povoam os nossos média), quado finge ignorar que os alemães beneficiam de mais férias, mais licenças por doença e por maternidade, por exemplo (em média, mais quatro semanas do que as gregas! (BBC News Magazine), do que os europeus do Sul.
Manuel Loff, Historiador Jornal Público 01.03.12 
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