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“Estava radiante de caridade, de fé e de esperança. Continuou, prosseguiu a história, o roubo dos mais fortes, desde os primeiros dias do mundo, as multidões miseráveis reduzidas à escravidão, os possuidores acumulando os crimes para nada restituirem aos despossuidos, que morriam de fome e de violência. E esta acumulação de riqueza, aumentada no decurso do tempo, mostrava-a ainda hoje nas mãos de alguns, os domínios dos campos, as casas das cidades, as fábricas dos bairros operários, as minas onde dormem a hulha e os metais, as explorações de transportes, canais, caminhos de ferro, os fundos enfim, o ouro e a prata, os milhares de milhões que circulam nos bancos, todos os bens da terra, tudo o que constitui a incalculável fortuna dos homens. E não era uma abominação que tantas riquezas só dessem em resultado a horrível indigência do maior número? Isto não clamava justiça, não se via a inevitável necessidade de proceder a uma nova partilha? Uma tal iniquidade, duma parte a ociosidade regorgitando de bens, da outra parte o doloroso trabalho agonizando de miséria, tinha feito do homem um lobo do homem. Em vez de se unirem para vencer e domesticar as forças da natureza, os homens devoravam-se uns aos outros, na loucura, abandonando a criança e o velho, esmagando a mulher, besta de carga ou carne de prazer. Os próprios trabalhadores, corrompidos pelo exemplo, aceitavam a sua servidão, de cabeça baixa sob a universal cobardia. E que espantoso desperdício de fortuna humana, as somas colossais que se gastavam com a guerra, todo o dinheiro que se dava aos funcionários inúteis, aos juízes, à polícia! E todo o dinheiro ainda, que ficava sem necessidade nas mãos dos comerciantes, intermediários parasitas, cujo ganho era tirado ao bem-estar dos consumidores! Mas nisto não havia só o escoamento quotidiano duma sociedade ilógica, mal construída, havia também o crime, a carestia deliberada, imposta pelos proprietários dos instrumentos de trabalho, para salvaguardarem os seus interesses. Reduziam a produção de uma fábrica, impunham dias de descanso, fabricavam miséria, com um intuito de guerra económica, a fim de manterem os altos preços. E admiravam-se, se a máquina estalava, se ela abatia sob um tal montão de sofrimentos, de injustiças e de vergonhas!

excerto de Trabalho, de Emílio Zola

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