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Privilégios e excepções 

Isto do valor das palavras anda cada vez mais embaralhado – e não por acaso. Atentemos na palavra previlégio, que já não se aplica àqueles que vivem, cada vez melhor, do trabalho roubado aos outros, mas tão somente a qualquer coisa que limite a liberdade dos capitalistas, seja de sugarem a força de trabalho alheia pelo menor preço possível, seja de tudo mercantilizar.

Atente-se na perpectiva construída: os filhos dos latifundiários passeiam de jeep pago com os fundos comunitários da herdade do papá? Aponte-se o dedo antes ao filho do ferroviário, esse privilegiado, que andava de comboio sem pagar; os contratos das PPP impõem pagamentos de milhares de milhões por auto-estradas onde o povo não pode circular? Pois pague-se porque o Estado honra os seus contratos, excepto os que definem privilégios para quem trabalha como os Acordos de Empresa; privilegiado é ainda o doente com isenção no pagamento, não o parasita que só porque tem muito dinheiro pode ir a qualquer hospital, a qualquer hora, fazer qualquer coisa. Como priviligiado é o trabalhador-estudante que tem direito a um regime laboral adequado, não o novo-rico que vai ser doutor apesar de ser meio analfabeto e nem saber onde é a escola. Um dos objectivos da opinião publicada é exactamente impor a perpectiva da classe dominante à própria classe dominada. Agora recentemente, é a palavra excepção que tem merecido iguais tratos. Há uma regra que manda pagar no final do mês o valor estabelecido no contrato. O Governo aprovou um excepção, estabelecendo que a alguns (muitos”) trabalhadores se deve roubar uma parte do salário. Os trabalhadores da TAP já conseguiram, pela luta, diminuir o roubo de cerca de 30% para cerca de 25% e passaram a ser acusados de privilegiados por terem uma excepção… à excepção! Confundidos por este quadro onde as excepções são boas ou más conforme descem ou sobem o preço da força de trabalho, há até quem, no seio dos próprios trabalhadores, queira negociar mais excepções, em vez de lutar contra o regime excepcional que promove o roubo dos salários, e que a não ser globalmente combatido, não só não será derrotado como converterá a excepção em regra!

Manuel Gouveia

Fonte Jornal Avante! 05.04.2012 

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