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Toda a história da humanidade é a história da organização e da educação do homem social pelo trabalho, com vista a obter dele uma maior produtividade. O homem, como já me permiti dizer, é um preguiçoso, isto é, esforça-se instintivamente por obter com o mínimo de esforços o máximo de produtos. Sem esta tendência, não haveria desenvolvimento económico. O desenvolvimento da civilização mede-se pela produtividade do homem e qualquer nova forma de relações sociais tem de ser sujeita à prova desta pedra de toque.

O trabalho “livre” não surgiu de repente em toda a sua força de produtividade. Só progressivamente atingiu uma alta produtividade, como resultado da aplicação prolongada de métodos de organização e de educação do trabalho. Essa educação utilizou os meios e os processos mais diversos, que além disso, se modificavam consoante as épocas. No início, a burguesia expulsava à cacetada o mujique da sua aldeia e empurrava-o para a estrada, depois de previamente o ter despojado das suas terras. E quando ele não queria trabalhar na fábrica, marcava-o com ferro em brasa, enforcava-o, enviava-o para as galés e acabava por habituar o miserável ao trabalho da fábrica. Como vemos, esta fase do trabalho “livre” só difere muito pouco dos trabalhos forçados, tanto do ponto de vista das condições materiais, como do ponto de vista legal.

Em épocas diversas, em proporções diferentes, a burguesia utilizou simultaneamente o ferro em brasa, a repressão e métodos de presuasão. Para esse efeito o contributo dos padres foi inestimável. A partir do século XVI ela reformara a antiga religião católica que defendia o regime feudal e adaptara às suas necessidades uma nova religião, a da Reforma, que combinava a liberdade da alma com a liberdade do comércio e do trabalho. Fabricou novos padres, seus guardiões espirituais e devotos servidores. A escola, a imprensa os conselhos municipais e o Parlamento foram adaptados pela burguesia com vista a formar as ideias da classe operária. As diversas formas de salário (ao dia, por unidade, por ajuste, por contrato colectivo), entre as mãos da burguesia, somete constituem meios variados para o adestramento do proletariado para o trabalho. Ao que se juntam diversas formas de incitamento ao trabalho e de excitação para o arrivismo. Enfim, a burguesia soube apoderar-se das trade-unions, organizações da classe operária, e delas tirar o máximo de proveito para disciplinar os trabalhadores. Domesticou os leaders e, por intermédio destes, convenceu os operários da necessidade do trabalho calmo, do cumprimento irrepreensível do seu trabalho, da total execução das leis do Estado burguês. O culminar de toda esta obra foi o sistema Taylor, no qual os elementos da produção se combinam com os mais aperfeiçoados métodos do sistema diaforético.

Do que foi dito se infere claramente que a produtividade do trabalho livre não é algo de determinado, de estabelecido, de apresentado pela História numa bandeja de prata. Não! É o resultado de uma longa política persistente, repressiva, educadora, organizadora, estimulante da burguesia em relação à classe operária. Pouco a pouco, ela aprendeu a extorquir uma quantidade cada vez maior dos produtos do trabalho dos trabalhadores, e o assalariamento voluntário, única forma de trabalho livre, normal, são, produtivo e salutar constituiu umas das mais poderosas armas nas mãos dela.

Uma forma jurídica do trabalho, assegurando por si própria a produtividade, nunca existiu na História nem pode existir. A cobertura jurídica do trabalho corresponde às relações e às noções da época. A produtividade do trabalho desenvolve-se com base no desenvolvimento das forças técnicas, na educação do trabalho, pela progressiva adapatação dos trabalhadores aos meios de produção, que constantemente se modificam, e às nova formas de relações sociais.

A criação da sociedade socialista significa a organização dos trabalhadores em novas bases, a adaptação deles a estas, a sua reeducação com o fim de aumentar constantemente a produtividade. A classe operária, sob a direcção da sua vanguarda deve fazer a sua própria reeducação socialista. Quem nem o entendeu nada entende do a b c da construção socialista.

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Fonte O Anti-Kautsky, de Léon Trotsky

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